Certa vez eu fui convidado para participar de uma entrevista numa emissora de TV pertencente a uma igreja. O tema era preconceito. Numa das perguntas, que não me lembro bem qual foi, me levou a mostrar que estamos preocupados com o preconceito contundente, explícito, mas não com os que convivemos no dia-a-dia.
Muitos destes preconceitos têm o objetivo de inclusão, mas que excluem; parte deles resulta da insegurança com que lidamos com o outro, ou de como fugimos das diferenças. Eu diria, até, e com certo cuidado, que o preconceito é universal. Deixe-me explicar antes que me chamem de radical.
O preconceito é um julgamento antecipado a partir da perspectiva de um grupo ou da idiossincrasia de quem prejulga. Eu, por vezes, sou chamado de soberbo e outras de desligado, ou que vivo no mundo da lua em face de não atender quando chamado. Ao falar que tenho uma deficiência auditiva sinto ser evitado, talvez porque as pessoas têm dificuldade de lidar com uma deficiência. Principalmente uma deficiência que não é facilmente percebida, pois sempre fica aquela dúvida: será que é surdo, mesmo? Ora, se eu escuto, por que ele não?
Do grupo que estava na mesa redonda eu era o único sem ideais religiosos; os outros eram recém convertidos e havia um jornalista. O apresentador era um pastor. Comentei que o assédio é uma forma de preconceito, pois o que assedia prejulga o assediado como alguém inferior. Social, econômica, intelectual, política ou religiosamente. O que caracteriza o assédio, então, é a pressão que parte de um superior hierárquico (no sentido enumerado acima) a um subalterno. No caso do assédio sexual fora de um ambiente institucionalizado (uma empresa, por exemplo), o homem é sempre quem assedia, pois imagina a mulher num patamar inferior ao seu. O sucesso do filme Assédio Sexual foi porque a história era a de um homem sendo assediado por uma mulher, a sua chefa.
Claro que o assédio sexual é uma das formas de assédio. Há o assédio caritativo. Quem não já experimentou o assédio, por telefone, de representantes da LBV (Legião da Boa Vontade), Casas André Luiz, e outras instituições congêneres? Das pessoas que se dizem pertencer a instituições de apoio aos consumidores de drogas, de álcool, etc., postadas nos semáforos? O sentimento de ter gente que dependem deles dá-lhes a superioridade, tornando-lhes difícil receber uma resposta negativa.
O assédio religioso talvez seja um dos mais terríveis e criminosos porque mexe com visões de mundo. Claro que na entrevista usei palavras mais leves, e mesmo assim causei um mal estar, pois os religiosos chamam esse assédio de proselitismo. Proselitismo religioso, quando estão “levando a palavra de Deus”? Por que este proselitismo se transforma em assédio? Transforma-se porque os religiosos andam em grupos e costumam abordar uma ou no máximo duas pessoas; a superioridade numérica transforma o proselitismo em assédio.
Eu sempre fiquei em dúvida se o PT (Partido dos Trabalhadores) era um partido político ou uma igreja. Certa vez eu ameacei um colega, petista até as raízes, um militante fundamentalista, de processo por assédio político. Ele, apesar de ser da área das ciências sociais, não havia atinado para esta questão. Ele usava a mesma técnica assediadora usada pelas igrejas evangélicas.
Fala-se muito de Hugo Chavez, atual presidente venezuelano, como um “protoditador” e que vende aos cidadãos daquele país um paraíso socialista, no qual ele seria o próprio Deus. Estas coisas ainda existem. Em pleno século XXI. Mas ele seria caso único? Não. A Internet tem sido o veículo do que eu tenho me referido como “teocracia difusa”. As igrejas, como entidades coercitivas, servem-se bem de instrumento e/ou de modelo para estas tentativas caudilhescas.
A “teocracia difusa” se refere à difusão de idéias religiosas através de mensagens subliminares constituídas de pequenas narrativas, cafonas, é verdade, mas que descrevem uma pequena moral. E no final afirma-se ser palavra de Deus, de Jesus, ou de qualquer outro personagem do panteão religioso do cristianismo. Como se estes personagens fossem entidades concretas e não resultado de produções ideológicas.
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