
Emir Sader, que pretende recorrer, teve pena de prisão substituída por prestação de serviços à comunidade
DA REPORTAGEM LOCAL
O sociólogo e cientista político Emir Sader, professor do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), foi condenado por crime de injúria contra o senador Jorge Bornhausen (SC), presidente nacional do PFL. Sader disse, por intermédio da assessoria de imprensa da Uerj, que recorrerá da decisão. Procurado pela reportagem da Folha, o sociólogo não respondeu às ligações.
O juiz auxiliar da 22ª Vara Criminal de São Paulo, Rodrigo César Muller Valente, condenou o sociólogo à pena de um ano de detenção, em regime inicial aberto. O juiz determinou que a pena seja substituída por serviços à comunidade, pelo fato de o sociólogo ser réu primário. A condenação baseou-se também no fato de que "a injúria foi largamente difundida, alcançando caráter difuso a número indeterminável de pessoas".
A sentença diz ainda que Sader deve deixar o cargo público na universidade. Ontem, ele trabalhou normalmente. E permanecerá no cargo, segundo a Uerj. A razão da condenação foi um desdobramento da polêmica frase de Bornhausen, em 2005 -"A gente vai se ver livre desta raça por pelo menos 30 anos", em referência ao PT e à esquerda brasileira.
Emir Sader respondeu à frase de Bornhausen em artigo publicado no dia 28 de agosto de 2005, na agência de notícias na internet "Carta Maior". O sociólogo escreve artigos em um blog na "Carta Maior".
"O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares (...) revela agora todo o seu racismo e seu ódio ao povo brasileiro com essa frase, que saiu do fundo da sua alma -recheada de lucros bancários e ressentimentos", disse Sader na ocasião. Ele defendeu ainda que Bornhausen fosse processado por discriminação e racismo, e acusou o senador de atitude fascista.
Bornhausen impetrou queixa-crime contra Emir Sader. "Inegável, pois, que o artigo de autoria do querelado conteve ofensa à dignidade e decoro do querelante", disse o juiz. "Ao adjetivar um senador da República de "racista", esqueceu-se o réu de todos os honrados cidadãos catarinenses que através do exercício democrático do voto o elegeram como legítimo representante em nossa República Federativa. Trata-se, pois, de conduta gravíssima, que de modo algum haveria de passar despercebida, principalmente porque partiu de alguém que, como profissional vinculado a uma universidade pública, jamais poderia se valer de um meio de comunicação de grande alcance na universidade em que atua para divulgar ilícito penal".
1968 foi o ano em que terminei a faculdade. Terminei a faculdade um pouco tarde pois fiz um caminho inverso do que se faz normalmente. No caso da Antropologia, eu fui estudar esta área do conhecimento na minha volta do Xingu. Foi lá que eu me engracei por ela.
Aqui no Brasil chegou somente os conflitos do movimento estudantil, pois a ditadura tornou o terreno fértil para isto. Mas não chegou o movimento dos filósofos, por exemplo, que rompeu com o marxismo, que perdera sentido como práxis política. O stalinismo era a negação da essência marxista. O nosso partidão era stalinista e ainda hoje encontramos stalinistas entre nós. Zé Dirceu nunca confessou, mas ele rota stalinismo. O centralismo democrático não tem nada de leninismo, é puro stalinismo.
A virada ideológica, todavia, se deu a partir de 1970, depois do AI5 (Ato Institucional nº 5). Entramos num eclipse político total e aí houve uma profunda ideologização marxista, mas com enfoque stalinista. Isto era o novo e o certo. O resto era o duvidoso. Pelo que vimos, ainda é. As universidades começaram a formar militantes. Perderam grande parte a sua função do livre-pensar.
O Professor Milton Santos, numa entrevista dada ao JB (27/08/2000) afirmou que “A universidade é o lugar de intelectuais, o sujeito que dedica todo o tempo a busca da verdade, e também de letrados. Você pode ser um bom professor e um pesquisador. Tem espaço para os dois na universidade. Mas, é verdade também que, embora ela esteja formando intelectuais, ela tem produzido em maior número letrados. O espaço universitário se define por ser o lugar do livre pensar, de criar idéias e discuti-las. Esse é sentido real da vida universitária. No entanto, acho que o clima atual não favorece a liberdade de pensar”. Anos antes, numa conferência num encontro dobre professores e pesquisadores negros das universidades paulistas, fez uma afirmação pra que um intelectual nunca deverá esquecer: o intelectual nunca será um militante porque pensa; um militante nunca será intelectual porque lhe falta a capacidade de pensar. Pensar é refletir.
Uma grande parte da militância petista, nestas eleições de 2006, era formada por professores universitários distribuindo notícias mentirosas, outras com fatos destorcidos, que me levavam a indagar se a sua produção de conhecimentos é verdadeira.
Ligo isto à ideologização posterior ao AI5, a que me referi acima. Perdeu-se a capacidade de se pensar. Lá em Morretes, ainda guri, chegava rápido em casa para alcançar o carteiro que levava o jornal “O Dia” para dar uma vista antes de ir ao rio pescar um Inhacundá para comer com arroz branco.
Norberto Bobbio comenta em Teoria do Ordenamento Jurídico de que o conteúdo de um texto não está “dentro” do texto, mas na correção e na clareza de como foi escrito. O conteúdo está na essência do pensamento do autor, materializado em palavras.
O pensamento é construção de imagem; o bom texto é um bom fornecedor de matéria-prima para a formação de imagens. Claro que as nossas imagines não são exatamente as imagens do autor do texto, pois as construímos a partir de nossas experiências de vida.
Hoje não mais precisamos a nos dar o trabalho de construir imagens porque elas já nos vêm prontas. Os meios de comunicações se encarregam disto. Recebemos a imagem pronta.
Tempos atrás li em algum lugar que a grande vantagem do computador era a de obrigar as pessoas a escrever. Escrever. Mas esta campanha eleitoral fez com que as minhas esperanças fossem embora. Elegeu-se alguém não porque era melhor, mas porque tinha por trás de si um Ás do marketing. Elegeu-se um produto não-letrado. Eureka! Não é letrado; talvez venha a pensar. Será o intelectual e assim, talvez, não precise mais falar do seu antecessor. Poderá vir a ser um intelectual. Ah, não, ainda pensa como um presidente de sindicato e o Brasil como um “sindicatão”. Uma “CUTizona”. Ah, pelo jeito perdi as minhas esperanças. Perdi, não, esqueci em qualquer lugar por aí. Se encontraram a “caixa preta” do Boeing que caiu na Amazônia, por que não encontraria as minhas esperanças?
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