Ações afirmativas

Hoje se fala com em ações afirmativas com muita veemência. Dentre elas estão as cotas de matrículas nas universidades para categorias sociais consideradas excluídas. As ações afirmativas, como políticas sociais sem a certeza de darem certo se transformam em engodos.

As cotas para os negros ingressarem na universidade são uma ação afirmativa que se pretende “incluir” uma parcela da população negra hoje considerada “excluída”. As cotas são necessárias, justifica-se, porque os negros não tiveram uma formação escolar próxima daqueles que disputam, entre muitos candidatos, cada vaga de uma universidade prestigiada. Eventuais beneficiadas pelas cotas farão parte de uma minoria em cada classe, entre dez ou vinte por centro. Será que algum professor irá prejudicar a maioria em favor de uma minoria? Não irá. Por uma questão ética. O sistema de cotas exclui estudantes com capacidade intelectual de ingressar na universidade.

A imprensa tem noticiado a respeito de estudantes que foram beneficiados pelo sistema de cotas e se sobressaíram dentre os demais. Estes alunos fazem parte de uma exceção ou é regra estes alunos se colocarem entre os primeiros?

O sistema de cotas não é justo porque exclui estudantes aprovados com condições de disputar vagas em número previamente anunciadas; e não é justa porque se torna uma “sobre-exclusão” (o sentimento de incapacidade de acompanhar a sua turma) dos alunos que ingressaram pelo sistema de cotas.

Provavelmente eu possa ser acusado de emitir opiniões que não são politicamente corretas, frustrando pessoas que poderão se beneficiar pelo sistema de cotas. É bom que esta frustração aconteça antes do ingresso.

A imprensa tem noticiado a respeito de muitas organizações não-governamentais têm conseguido “colocar” alunos em universidades em que há grande disputa de vagas, tornando desnecessário o sistema de vagas. Mas isto é um “quebra-galho” à grande injustiça que se tornou a educação brasileira. Ela se tornará justa a partir do momento que os diferentes níveis da educação mereça uma atenção governamental de modo que os alunos cheguem à universidade com direitos iguais (ou pelo menos próximos).

As universidades deverão ser consideradas como investimento através da pesquisa (produção de conhecimentos), da docência (disseminação do conhecimento e formação profissional) e de extensão à comunidade (aplicação experimental do conhecimento). O sistema de cotas tornará as universidades em locais de benemerência.

As universidades começaram a se degradar a partir do momento que os ensinos fundamental e médio começaram a ser abandonados.

Em 1996 a minha mãe foi homenageada dando o seu nome à uma escola municipal de Morretes. Minhas irmãs pediram-me que escrevesse algo para agradecer a homenagem, em nome da família. Aproveitei para escrever algo que pudesse levar as pessoas refletirem a respeito da educação fundamental. O texto é o a seguir.

Uma reflexão sobre educação I

 

Parte I

Resumo biográfico de

Dulce Serôa da Motta Cherobim

Uma reflexão sobre educação

 

            Fui encarregado, como filho mais velho, escrever algo sobre minha mãe, Dulce Serôa da Motta Cherobim. A primeira dificuldade é a do filho escrever sobre seus pais, dos quais se sente uma de suas projeções. Este resumo biográfico tornou-se uma reflexão sobre si próprio; como filho e como morretense. É difícil separar estas duas coisas. A segunda dificuldade, decorrente da primeira, é escrever suas memórias - e de memória - sobre aquela que o gerou e o socializou: isto é, tornou-o parte  deste mundo social em que vivemos. For fim, acho que uma relação de datas não diria quem foi Dulce Serôa da Motta Cherobim, falecida há quarenta anos. Então, não só como filho, mas como cidadão, faço o possível para que a patrona de um grupo escolar não seja simplesmente um nome, mas uma pessoa que viveu a educação e lutou por ela nesta nossa Morretes.

            Dulce Serôa da Motta Cherobim nasceu em Guajuvira, município de Araucária em 16 de outubro de 1910 e faleceu em Morretes, em 06 de março de 1956. Pouco antes de completar seu quadragésimo sexto aniversário. Faleceu após sofrer, três anos antes, um derrame cerebral. Deixou-nos jovens. Duas filhas adolescentes, uma pré-adolescente e um filho que acabara de estrear sua vida adulta, o tão esperado “dezoito anos”. Dulce Serôa da Motta Cherobim, apesar de adoecer e falecer prematuramente, deixou uma marca de sua vida como pessoa e como professora, lembrada quarenta anos depois de sua morte para se tornar patrona um grupo escolar. Esta homenagem, a meu ver, supera a emoção de sua passagem e ressalta a marca de sua presença entre os educadores de nossa cidade.

            Se existir "um outro lado”, como muitos acreditam existir, vejo-a encabulada com a homenagem; seu valor era uma questão de vida. Se hoje nós, seus filhos, conseguimos algo em nossas vidas devemos isto à sua retidão de caráter. Posso dizer que seus irmãos, filhos, sobrinhos, netos e bisneta, sentem-se emocionados e orgulhosos com esta homenagem.

            Mas quem foi minha mãe? Os morretenses que a conheceram e que foram seus alunos, os mais novos são os cinqüentões de hoje. Como os mais novos não a conheceram, vou procurar fazer um breve resumo de história.

Uma reflexão sobre educação II

 

Parte II

Resumo biográfico de

Dulce Serôa da Motta Cherobim

Uma reflexão sobre educação

Notas de sua história

            Dulce Serôa da Motta Cherobim era filha de Francisco Serôa da Motta Sobrinho e de Maria Carmela Sentone da Motta. Seu pai, Seu Serôa, nasceu em Mata da Vara, zona rural de Propriá, Sergipe. Ficou órfão ao nascer. Foi criado por uma tia materna até a adolescência, quando foi para Recife, viver com um seu tio, também do lado materno e de quem herdou o nome. Muito jovem sentou praça no Exército, na mesma unidade em que este seu tio (então Coronel Serôa) era comandante. Como primeiro sargento foi incorporado às tropas que se deslocaram para o Acre (Questão do Acre, conflito do Brasil com a Bolívia). Adquiriu beribéri (doença devida à carência de vitamina B1) durante a viagem. Ele e parte da tropa com a mesma doença foram levados ao Rio de Janeiro para serem tratados e à Lorena (SP), e posteriormente Piquete (SP), para convalescerem. Restabelecido, o então Sargento Serôa foi transferido para a Colônia Militar de Xanxerê, em seguida para Curitiba e depois para Foz do Iguaçu. Primeiro a aventura e depois o casamento.  No tempo em que meu avô ficou em Curitiba, conheceu Maria Carmela. A viagem de Curitiba a Foz do Iguaçu era feita com tropas de carroções até Guarapuava e daí para frente com tropa de cargueiros. Uma viagem normal demorava entre setenta e oitenta dias. A cada viagem formava-se uma tropa e os viajantes teriam que aguardar alguns meses para isto acontecesse. 

            Maria Carmela, moça prendada, uma das primeiras alunas do Instituto de Educação, era filha del Signore Antonio Sentone, um napolitano que não queria saber de soldados em sua família. Seu apaixonado recebeu um ultimatum: para casar teria que sair do Exército. Saiu. Sua estadia em Foz foi marcada por trocas de cartas apaixonadas que, mais tarde, seus netos puderam deliciar-se em lê-las. De volta a Curitiba, Maria Carmela já era professora, trabalhava em sua primeira classe, num distrito do atual município de São José dos Pinhais. Depois foi transferida para Guajuvira, distrito de Araucária, casada com o agora paisano Serôa. Compraram um carroção e montaram uma fábrica de (refrigerante) gasosa naquele distrito, consumido em Curitiba. O carroção era seu meio de transporte para a família e para a carga.

            Seus três filhos (Dulce, Almir e Rubens) nasceram em Guajuvira. Por volta de 1915 soube da possibilidade de se conseguir terras devolutas numa distante Morretes. Desceu a serra, e foi conversar com o encarregado do órgão que tratava dos assuntos fundiários: Seu Elesbão. Foram ver as terras. Ao subir os morros do Pitinga, mio vechio Serôa contava que encontrou, no meio da mata, uma folha de jornal com uma manchete em letras garrafais: "TEU LUGAR É AQUI". Esta manchete o fez viver o resto de sua vida no Pitinga. Minha avó assumiu uma escola do Rio Sagrado, onde lecionou até sua aposentadoria. Foi onde seus três filhos estudaram.

            Dulce, minha mãe, em meia adolescência, foi mordida por um cachorro. A falta de recursos em Morretes levou-a a se tratar em Curitiba, onde ficou aos cuidados de sua tia Noêmia (Nia). O seu tratamento coincidiu com o concurso de ingresso para o curso de professoras do Instituto de Educação. Foi aprovada nas primeiras colocações e assim continuou durante todo seu curso. Após se formar conseguiu transferir-se para Morretes, por volta de 1930.

Uma reflexão sobre educação III

Parte III

Resumo biográfico de

Dulce Serôa da Motta Cherobim

Uma reflexão sobre educação

 

             A professora

                                               Até 1949 o Grupo Escolar era a única possibilidade de escolaridade em Morretes. Era o curso primário com quatro anos, com a opção do quinto ano. Depois daí só em Curitiba ou em Paranaguá. Houve uma época em que foi oferecido um Curso Complementar (este era o nome), em dois anos, que permitia a continuidade dos estudos universitários. Minha mãe era professora do Grupo Escolar e foi responsável por este Curso Complementar enquanto existiu. Foi minha professora no segundo ano do primário.

            O primeiro curso primário noturno, para adultos, foi ministrado no final da Rua XV, do qual também minha mãe foi a responsável.

            Sua aptidão pelo desenho levou-a lecionar esta disciplina no ginásio (quando voltei a ser seu aluno). O excesso de trabalho obrigou-a desistir destas aulas, sendo substituída pela Profª. Desauda, cujo nome é patrono de um outro Grupo Escolar.

 

A mãe que também era professora

            Morretes via Dona Dulce, a professora que sempre se destacou em seu mistér. Nós, filhos, não víamos a professora, mas a mãe que também era professora. Antes de tudo era gente. Com defeitos e com virtudes. Hoje, numa análise distante, parece-me que as virtudes superavam os defeitos; as lembranças dos morretenses mais antigos são de carinho e de respeito como pessoa e como educadora. As gerações se sucedem e a nossa memória se esvai.

            As reformas educacionais transformaram a escola primária de antigamente e as quatro séries iniciais do primeiro grau como uma fase considerada de menor importância; seus professores, com salários aviltantes, têm que procurar outros meios de sobrevivência, tornando-os impossibilitados de orientar todas as suas inteligências às primeira letras. Minha mãe e tantas outras professoras contemporâneas faziam parte de uma elite intelectual que lhes permitia uma dedicação integral às suas atividades de educadoras.

            Nós, como filhos, estamos agradecidos e emocionados em ver o nome de nossa mãe batizando uma escola. Mas ficaremos mais agradecidos e gratificados se pudermos aproveitar este ato como um momento de reflexão acerca da educação de primeiro grau no Brasil. Esta reflexão seria a maior e verdadeira homenagem à educadora que foi Dulce Serôa da Motta Cherobim.

 Mauro Cherobim - S.Paulo, 12/10/96

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