O agonizantezinho
Por que este referendo? Qual será o resultado prático e benéfico traria a proibição do co-mércio de armas e de munições? Pela pregação dos favoráveis à proibição é para evitar brigas de marido e de mulher, brigas de vizinhos e brigas de botequim. Claro que não acabará com as brigas; mudarão os instrumentos. Ao invés de revolveres, serão usadas facas de cozinha ou de churrasco, rolo de macarrão, porretes, tramelas, etc.
A questão não é mudar o instrumento do crime, mas acabar com o crime. Pelo que pude sondar, as pessoas que votaram no NÃO, não o fizeram por serem belicosas, querem andar de revolver na cintura atirando em todos aqueles que cruzarem na sua frente. Votaram contra o go-verno, temerosos com o “Lulinha, paz e amor”. Entraram na conversa. Ganharam o Lulinha e não conseguem como descarta-lo. Agora lhes oferecem uma paz com jeito de discórdia, num momento de insegurança, em que a segurança pública se vê inerte frente aos bandidos com um poder de fogo que ameaça o Estado.
O brasileiro vai decidir se proíbe o mercado de armas e munições no momento em que terras são invadidas; em que políticos do partido que elegeu o Presidente da República estão na eminência de perderem os seus mandatos eletivos por corrupção; no momento em que seqüestros relâmpagos e seqüestros executados por quadrilhas especializadas ficam meses com as suas víti-mas; no momento em que membros das polícias civis e militares começam a participar do chamado crime organizado, o que receberemos em troca votando para que o comércio de armas e munições sejam proibidas?
Parece-me que o que está faltando neste governo é exatamente perspectivas de governo. Isto não é novidade. A votação indiscriminada contra os projetos do governo anterior, muitos deles politicamente difíceis, como quem cospe para cima, os projetos que reprovaram no passado estão sendo discutidos hoje, culpando-se os que lhes sucederam.
Se o NÃO ganhar será um grande derrota política do governo e terá influência nas próxi-mas eleições; será o primeiro passo para que esta fase seja encerrada.
Todas estas minha elucubrações devem-se à lembrança ao Epílogo dos quatro volumes da História Sincera da República de Leôncio Basbaum. A sua História é uma história contada para o cidadão comum, como o pajé conta a história do seu povo em volta do fogo, na praça central de sua aldeia. Basbaum contou até 1967 e faleceu em 1969. Foi testemunha do primeiro golpe dentro do golpe. Por isto critica os “médicos” fardados e armados. Bom seria se ele tivesse sobrevivido e contado a história de 1967 para cá.
Eis a história do agonizantezinho contada por Basbaum:
Há alguns anos, havia no Rio de Janeiro, pois já faleceu há cerca de três décadas, um mé-dico, professor da Faculdade de Medicina, que se tornou célebre pelo seu imenso saber e pelo seu grande espírito humanitário, pela amabilidade com que tratava seus clientes. Era o Professor Miguel Couto. Quando ia visitar um doente que já estava “nas últimas”, não deixava de reconforta-lo com palavras amáveis e encorajadoras. Costumava dar umas palmadinhas nas costas do enfermo ao mesmo tempo em que dizia com um sorriso:
- Como vai o nosso agonizantezinho?
O agonizante, já mais prá-lá-do-que-prá-cá, respondia, num último suspiro:
- Vou melhor, doutor.
E passava à eternidade.
Esse era o espírito que dominava os responsáveis pela direção da política econômica e fi-nanceira do País, o nosso agonizantezinho, nos anos de 1965 e 66: palavras amáveis e encoraja-doras, enquanto não vem o desenlace.
Era o que se observava nos seus contínuos pronunciamentos, em belas conferências nos almoços de confraternização, nas prestações de contas perante as classes conservadoras inquietas e pessimistas, nas entrevistas pela televisão. A diferença é que usavam termos técnicos, nem sem-pre de alcance popular e, desse modo, podiam, dizendo a verdade, ao mesmo tempo oculta-la:
- Não deveis assustar-vos com a “matemática frívola”. Temos diante de nós uma bri-lhante “reversão de expectativas” e o Brasil caminha triunfante para um longo período de “impansão”!
Neste ano de 1967, mudaram os médicos e, numa verdadeira reversão de expectativas, conservaram a mesma terapêutica, a velha terapêutica à base de cataplasmas, de óleo de rícino, de sanguessugas.
E o nosso agonizantezinho, por isso mesmo, continua cada vez mais agonizante, até que morra da cura.
Quanto tempo ainda resistirá o enfermo a tal tratamento? Essa é a dolorosa interrogação. Parece claro que não basta mudar de médicos: os que temos `.a vista são todos parecidos, todos fardados, com o mesmo avental, todos armados, com o mesmo estetoscópio, e não querem ouvir palpites de estranhos.
Mas é preciso fazer alguma coisa; mudar os médicos, mesmo que sejam mais caros, e também a terapêutica: o País não suporta mais óleo de rícino e sanguessugas. Não importa o pre-ço. Custe o que custar, é preciso mudar.
BASBAUM, Leôncio. Epílogo. In: Seu, História Sincera da República de 1861 a 1967. 2ª Ed. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1975-76. v.4. p.215-6.
O referendo está chegando
Os resultados da última pesquisa Datafolha indicam 57% de intenções de voto para o NÃO contra 43% para o SIM. Há de se notar, primeiro, que o aumento das intenções para o NÃO é proporcional ao aumento da escolaridade e, segundo, nos três Estados do Sul as intenções de voto ao NÃO chega a 81%, contra 19% ao SIM. Há outras informações interessantes, como a predominância do NÃO entre os católicos, apesar da campanha da CNBB a favor do SIM, e o maior número de intenções ao SIM em ter os evangélicos não pentecostais. E entre estes, um empate (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2210200501.htm). .
Os dados do Ibope divulgados pelo Jornal Nacional na noite de sexta se aproximam dos dados da pesquisa Datafolha (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u114356.shtml).
Quem acompanhou a campanha ao referendo notou que as duas campanhas não foram informativas, mas indicativas. A campanha do SIM fazia lembrar, em muito, a última campanha do PT para a Presidência da República, onde não deveria haver espaço para a discussão. Além de o Presidente da República e a sua esposa também tivessem entrado nesta campanha. A Folha de São Paulo de hoje (sábado, 22/10/2005) traz uma foto da primeira dama fazendo o sinal da campanha do SIM, o número dois com os dois dedos, também o sinal da vitória. Isto no momento em que o partido vitorioso nas últimas campanhas debater-se com sérias denúncias (e comprovação) de corrupção Talvez esteja aí o motivo, ou um dos motivos, para a vitória do NÃO. A falta de credibilidade do governo.
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