313 anos na história
313 anos de história

Em dezembro fui no Central rever onde nasci. Fui mostrar para Mirtes e para o meu candidato a genro. Onde havia a casa, uma macega. A nossa memória é imagética, ou seja, as nossas lembranças têm a forma de imagens. “Vi” o engenho funcionando, as carroças chegando carregadas de cana, a casa, a bica onde Nonna lavava as garrafas de leite, tio Jango cuidando da locomove. A casa era movimentada,com o galpão ao lado e nos fundos a estrebaria e era onde as mulheres iam conversar enquanto faziam sabão com bucho de boi, folhas de parrelheira, potassa e mais algumas misturas para dar o ponto. A potassa era guardada numa tábua, no alto e próximo às telhas. Um dia caiu na cabeça da Lolinha, mulher do Giocondo. Foi lavar a cabeça e caíram todos os seus cabelos; ficou careca por um ou dois anos. Os chiqueiros ficavam à direita e nos fundos o pasto das vacas e cavalos.

 

Saíamos pelos fundos, até a estrada dos Cassilhas. A esquerda, cruzando a estrada, o campo de futebol.. Fui retrocedendo no tempo e cheguei no dia em que Nonno faleceu. Ficou gravado na minha memória o féretro passando na estrada principal, acho que sentindo que aquela era a última vez que o veria. Deu um nó na minha garganta, como se aquilo fosse naquele momento.

 

O meu genro, italiano, comentou com a minha filha que ele e os italianos da Itália que não tiveram emigrantes entre os seus parentes, não consegue imaginar o modo de pensar dos italianos do Brasil. Ou dos italianos de fora da Itália. A Itália para os italianos daqui não é a Itália, estado europeu, um país... País, para os italianos daqui é o Brasil. O nosso mundo é o mundo em que nascemos e vivemos; é a colônia onde desenvolvemos a nossa vida social. É a marca de nossa identidade. É o nosso território.

 

Num determinado momento o espaço que marcamos como território desaparece e as pessoas mudam e nós passamos a nos sentir descolados do mundo. Perdemos o que sobrava de raízes, pois a maior parte delas ficaram nas terras de origens de nossos avós. E pelas andanças por aqui muitos de nossos antepassados ficaram até sem os seus documentos.

 

Nonna, Luigia Doff Sotta, Luiza Sotta Cherobim, nasceu em 1877, em Imer, Província de Trento. Seus pais eram Giuseppe Doff Sotta e Maria Innocenza Simion, nascidos, respectivamente  em 1836 e 1846. O meu bisnonno Giuseppe era filho de meu trinonno Giovanni, nascido em 1801 e minha bisnonna Maria Innocenza Simion era filha de Nicolo Simion e Marai Darrigo, ambos nascidos em 1822. Giovanni era filho de Pietro que nasceu em 1755, filho de Giovanni Maria nascido em 1726. Giovanni Maria era filho de Giovanni Domenico que casou com Lucia Goubert em 1692. Do casamento de Giovanni Domenico e Lucia Goubert até hoje retrocedemos  313 anos na história.

 

A comuna de Imer, na sua organização, presenteou os Cherobim descendentes de nonna Luiza em 313 anos de história e de raízes.

Para avivar a memória
04.04 - Mauro Cherobim, São Paulo - SP
Gostaria de lembrar que o golpe de 1964 aconteceu no dia 1º de abril de 1964. Não ficaria bem comemorar o aniversário da “Redentora” no dia da mentira. A sua comemoração foi adiantada em um dia alegando-se que as tropas do General Mourão partiram de Juiz de Fora minutos antes das 24 horas do dia 31. Os fatos políticos costumam se distanciar dos fatos históricos; estes mostram acontecimentos que tiram o lustro dados aos fatos comemorativos, elogiosos aos donos do poder.

Vivemos cerca de vinte anos sob o governo militar pregando ser o Brasil uma ilha de tranqüilidade. Com o fim da ditadura findou a censura. Como o sentimento de intranqüilidade acontece no agora e daqui para frente, a ditadura é associada à uma época sem violência, e aí encontramos o motivo de haver, ainda, tantos saudosos da ditadura.

Costuma-se atribuir à ditadura muitos feitos econômicos e perguntar a quem a ela se opõe: não fosse a ditadura, teríamos isto? É uma pergunta sem respostas porque houve uma ditadura. Os derrotados de 64 seriam melhores que os vitoriosos? Também não sabemos. No jogo político, seja ele democrático ou pela violência, sempre haverá os vitoriosos e os perdedores. O jogo político democrático faz-se através de regras que valem para todos os participantes. Posso dizer, por exemplo, que quem ganhou as eleições não foi o Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, mas um produto de uma estratégia de marketing. O marqueteiro do PT foi melhor os marqueteiros dos outros candidatos. Por mais que estes personagens sejam criticados, faz parte do jogo político.

O meu candidato perdeu as eleições e isto não me torna inimigo, mas adversário dos atuais detentores do poder. Como adversário político eu me acho no direito e na obrigação de criticá-los politicamente, mas isto não me autoriza, em hipótese alguma, de fazer críticas a partir de defeitos físicos, origens regionais, etc. Eu me sinto profundamente constrangido quando alguém se refere ao Presidente da República como “nove dedos” ou como “cabeça chata”. Este constrangimento seria o mesmo se fosse a pessoa mais simples do mundo.

O direito à pessoa não deve ser um tema de discurso, mas uma prática cotidiana.
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