Caminhar em frente ou deixar a banda passar

Este texto foi escrito em 19 de fevereiro de 1999 a partir de uma discussão a respeito das diferenças entre os antropólogos (e a sua formação) brasileiros e os antropólogos norte-americanos. Uma discussão neste sentido  fere muitas sensibilidades porque elas se tornam etnocêntricas. As discussões que envolvem profissão versus profissional, pessoas versus áreas de conhecimento a que elas pertencem são motivadora quando se fala das outras pessoas e das outras profissões, mas se tornam fontes de conflitos quando falamos de nós e da nossa profissão.  Não é fácil sermos sujeitos de nós mesmos.

O texto é praticamente o mesmo; fiz alguns ajustes da redação pois ele foi escrito “direto” sem qualquer correção.  Vamos ao texto.

 Tive um professor, no tempo da Faculdade, que era tarado por organizar as suas aulas, os seus cursos. Organizava tudo. Organizava tanto que faltava tempo para dar as aulas. E sua disciplina se chamava Organização Social. Mas não era de todo mal, pois ele discutia se deveria discutir este ou aquele texto, um era interessante porque discutia alguns pontos e outros textos discutiam outros pontos. Hoje, recordando deste professor que achávamos “enrolado”, na verdade era uma técnica, uma técnica eficiente disfarçadamente ele discutia vários autores, vários enfoques e os alunos, tentando “desenrolar” o professor participavam da discussão.

 Os participantes  desta lista são antropólogos ou são pessoas que têm alguma familiaridade com os objetos e os interesse da Antropologia. Falamos (escrevemos) muito da Antropologia, dos temas com os quais trabalhamos, mas não falamos dos antropólogos e muito menos da  "transculturalidade" desta lista. Cada um de nós nos tornamos um “transcultural” quando aderimos, mas não damos conta disto pois quando estamos em campo, por exemplo, “transcultural” é o outro. Como  podemos ser nós se somos cientistas e a ciência está acima das diferenças étnicas, das diferenças políticas?  Pensei: que tal eu me utilizar as táticas (ao invés de técnicas; as táticas são mais estratégicas) do velho professor. Poderia falar de uma porção de coisas evitando-se os contínuos conflitos da lista.

Eu não estou passando "pito" nos preclaros colegas. E nem  pensaria nisto. Ao contrário. Estou gostando. Gostarei muito mais se discutíssemos alguns temas - ou problemas - que nos deparamos no exercício de nossa atividade como antropólogos. Já falamos de uma dezena. A idéia inicial, colocada por Tony, foi o de comparar os doutorados brasileiro e norte-americano, mas ele não foi feliz em suas palavras. Logo após baixou o espírito do Sargento Getúlio levando os "recos" (soldados rasos. Sargento Getúlio, um sargento da polícia alagoana, vivido poelo ator Lima Duarte) a chiarem. Continuemos a falar sobre os doutorados, mas não dos cursos mas das pessoas que serão antropólogas. Quem e como são (ou serão) estas pessoas?

    Leciono em cursos de Pós há alguns anos. Fernando de Azevedo chamava de mazombo aquele pessoal que ia estudar em Paris e voltava com sotaque francês. Um mazombismo cultural. A população mazombense cresceu muito e com muitos sotaques diferentes. Além do sotaque há um certo esquecimento. O pessoal que ingressa nos cursos de pós nacionais desenvolve um mazombismo social; quando ingressam no mestrado (a concorrência no Pós em Educação na Unesp/Marília, nesta época, variava entre 10 e 15 candidatos por vaga) passam a se considerar os "donos da cocada preta" e quando passam para o doutorado "donos da produção da cocada preta". Mas trazem, infelizmente, muitos problemas de formação da graduação. E o problema maior, a meu ver, é ignorar um conjunto de conceitos básicos. Falava para meus alunos de graduação que se eles aprendessem a escrever seriam bons cronistas sociais mais dificilmente cientistas sociais. E agora procuro transformar meus orientandos em cientistas sociais sem terem sido cronistas! Será cômodo culpar as instituições educacionais; são perfeitas "sacos de pancada" para nos isentar de culpas. Lutei muito, fui marginalizado, por ser contrário à "ideologização" das ciências; os pretensos cientistas tornaram-se verdadeiros moralistas. Passaram a chamar a isto de "cientistas engajados". Florestan Fernandes, para dar um exemplo, sempre soube separar ciência de militâncias. Ele se tornou político no final de sua vida. O Professor Milton dos Santos, outro exemplo que devemos seguir, falou com todas as letras que o intelectual nunca será militante porque pensa; o militante nunca será intelectual porque não pensa. Ele falou isto num encontro realizado em Marília, no I Encontro de Docentes, Pesquisadores e Pós-Graduandos Negros da Universidades Paulistas em 1989. Numa entrevista, mais tarde, reclamava que as universidades deixaram de formar intelectuais; estavam formando letrados. O letrado, posso completar, é a matéria prima para que o indivíduo se torne um militante.

Criticamos Malinowski porque “esteve a serviço do imperialismo britânico”.Quantos de nossos colegas não estão a serviços de tantos outros imperialismos, alguns, até, de terceiro mundo?

O tema é crítico, espinhoso, mas precisa ser discutido.

Fonte: De: "Mauro Cherobim" <mcherobim@sti.com.br>

PARA: "Ant-Br@listhost.uchicago.edu" <ant-br@listhost.uchicago.edu>

Assunto: Ant-Br: Caminhar em frente. Ou deixar a banda passar...

Data: sexta-feira, 19 de fevereiro de 1999 19:15

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