Qualquer língua, em qualquer país, passa por uma domesticação. Domesticação talvez seja uma palavra muito forte; talvez paradigma seria mais adequado, uma Vez que poderíamos entender como enfoque ou visão de mundo. Não é, portando, discurso. É claro que os paradigmas deverão ser explicitados através de um discurso. A domesticação na academia é um processo de rigidez do seu discurso. Poderia até dizer que a domesticação é institucional.
Desta forma e concluindo o discurso poderá ser construído segundo o interesse de quem o elabora.
Eu sou um profissional que é pago com o dinheiro do contribuinte e isto me impõe uma obrigação ética de dar satisfação do que e como produzo. O meu discurso, então, tem que ser feito na língua portuguesa, acessível a todos que o queiram ler. Sejam antropólogos ou não.
A dificuldade é traduzir para a linguagem comum (a não acadêmica) um discurso que deveria, de início, ser fechado ao círculo acadêmico. É na tradução para um discurso não acadêmico, dentro das normas cultas da língua e sem se afastar dos paradigmas da antropologia (no meu caso), que reside a grande dificuldade.
Roberto: tudo isto é treinamento. Não é dom ou virtude.
Cristina: as informações, os saberes, são desorganizatórios. Eis porque o primeiro ato de governos ditatoriais é a censura; é por isto que determinadas denominações religiosas chamam a televisão de “a besta”; por pior que elas sejam, veiculam informações. Qualquer ousadia provoca mudança e as mudanças costumam provocar pânico..
Carlos Alberto e Márcio: Os meus cerceamentos de interpretação do que escrevo terminam no momento em que clico no botão “enviar”. E quando aperto aquele botão terei que me sujeitar e aceitar todas as críticas.
Como o outro lê o que eu escrevo sempre nos trazem surpresas. Por vezes escrevemos determinadas coisas que achamos a maior porcaria do mundo é visto pelo leito como o supra-sumo e o supra-sumo para quem escreve se torna uma grandíssima porcaria para o leitor. Quando preparei o meu mestrado para publicação ia tirar um capítulo. Para tirar este capítulo teria que dar uma reformulada em todo o trabalho. Como não estava com disposição para isto, deixei. Logo depois recebi um livro, de uma tese de doutoramento, que se utilizou daquele capítulo que eu queria eliminar.
Acompanhei, como testemunha um processo sobre terras indígenas; os advogados dos índios e os advogados dos pretendentes das terras usavam este meu trabalho, cada um “lendo” segundo os seus interesses, a favor dos índios e contra os índios. Nossa única segurança será o de não se mexer no texto.
Este meu trabalho foi conhecido primeiro pelos tribunais, de São Sebastião aos Tribunais Superiores de Brasília; os funcionários do Ministério da Justiça tiveram que ler para determinar as áreas indígenas do litoral. A academia o descobriu bem mais tarde.
É como as coisas funcionam. Mauro
Eu escrevi uma comunicação, há uns 10 anos, acerca da relação da pornografia com a educação sexual, para apresentar num congresso sobre sexualidade e educação sexual. Os participantes, em sua quase totalidade, eram terapeutas das áreas da medicina e da psicologia. E havia alguns educadores. Não conheci nenhum outro antropólogo além de mim; se houvesse e fossemos contar, sobrariam dedos de uma só mão. Eu não poderia, então, preparar um texto de antropologia para um congresso de antropologia. Ele teria que ser claro o suficiente para que pessoas de outras áreas compartilhassem das idéias ali contidas.
Talvez o texto estivesse claro demais. Solicitei um auxílio de viagem para uma instituição de fomento; a pessoa que examinou a comunicação negou a concessão do auxílio alegando que a comunicação era muito superficial. Passei a comunicação para vários colegas, inclusive antropólogos, para que eles me apontassem as superficialidades do texto. Nenhum deles encontrou superficialidades, mas comentaram que o texto tinha uma escrita boa para ser lida.
Respondendo ao Roberto, em seu comentário no primeiro texto: escrever ou procurar escrever claro depende de treino, autocontrole e atenção. As pessoas aprendem, no decorrer de sua socialização escolar, a utilizar o discurso de sua área de conhecimento; quando eu fazia a minha graduação achava muito bacana “escrever como sociólogo”. Quando entrei para o Pós, logo no início do curso, o meu orientador me chamou a atenção, mostrando que eu escrevia em italiano, mas com palavras portuguesas. Eu levei um susto danado. Este cara enlouqueceu, pensei com os meus botões; na minha cabeça não tinha cabimento uma coisa destas. Além do mais, meus avós não falavam a língua italiana, mas os seus dialetos, e como vinham de regiões diferentes, com dialetos diferentes. O português, então, se tornara a língua geral. O italiano que aprendi foi suficiente para não morrer de fome.
Com o tempo comecei a compreender o que o orientador queria dizer. Antes disto, no entanto, comecei a ler e como haviam sido escritos os textos do meu orientador (João Baptista Borges Pereira), do Prof. Egon Schaden, do Prof. Oracy Nogueira, do Prof. Rui Coelho, da Profª Maria Isaura Pereira de Queiroz, professores que reconhecidamente escreviam muito bem. O que eles fazem para que a leitura seja agradável?
Uma vez ouvi uma piadinha a respeito de como se identifica um livro de sociologia ou de antropologia. Se não conseguirmos ir além das primeiras meia dúzia de páginas, é um livro de sociologia; se continuar e gostar, será um livro de antropologia.
Eu fiz o meu curso de graduação na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ali havia uma influência norte-americana marcante e um (ou o) dos responsáveis por isto foi o Prof. Donald Pierson. E lá havia um manual do aluno, onde contava a história da Escola, descrevia a estrutura e dentre outras informações, ensinava a escrever trabalhos escolares. E também a ler. Na verdade, não ensinava, mas dava informações. Uma das coisas que mostrava aos leitores, por exemplo, é de a estrutura de uma frase tem na sua primeira parte uma afirmação e na segunda parte uma justificativa. Um parágrafo tem uma estrutura parecida. Esta estrutura nos obriga a escrever as frases na ordem direta. E não me lembro onde li ou ouvi, eu as frases devem, além de serem escritas na ordem direta, devem ser curtas. Assim sendo, algumas repetições se tornam estilos e reforço de idéias, ao invés de erros ou falta de estilo.
Havia, até, lá pelas décadas de setenta um tipo de prova que chamávamos de asserção e razão, respectivamente, afirmação e justificativa.
Lá por 85, 86, eu fazia um crédito no curso de doutorado. Naquela época a expectativa de título ainda não estava no gerúndio: mestrando, doutorando. Fazia um crédito para o doutorado com o Prof.João Baptista Borges Pereira. Indicou um livro, de pequeno tamanho, mas de uma importância muito grande, “A Antropologia da Academia: quando os índios somos nós. (Petrópolis: Editora Vozes; Niterói: Editora da UFF). Ele fala da domesticação do inglês na academia. Um dia eu comentei sobre este trabalho na lista de antropologia; Roberto fazia parte da lista e me enviou a segunda edição revisa e ampliada.
Resolvi criar este blog para registrar o que ainda não registrei. A vida de um professor e a de um cientista social é o de observar e escrever. O nexo entre estes dois atos é interpretativo a partir da visão de mundo de quem faz isto.
A visão de mundo é a forma como interpretamos o mundo em que vivemos. Os modelos interpretativos desta visão são os mais diversos, mas sempre ligado à experiência de vida de quem o interpreta. Comunitária, religiosa, profissional, política, etc.
Eu poderia definir a minha visão de mundo como profissional e dentre as categorias profissionais, a da Antropologia. Mas tenho que acrescentar que é a minha visão de mundo dentro da Antropologia; não dá para separar o profissional da profissão.
Assim me apresentando, o leitor vai dizer: esta é uma visão parcial. Onde está a imparcialidade deste fulano que se diz cientista social? A imparcialidade é um mito, igual a tantos outros mitos que cultivamos como verdadeiros, como concreto: Deus, um mundo religioso, alma, espírito, uma ética descomprometida, e logicamente, imparcialidade.
Eu aprendi que a metodologia científica tem que se basear na imparcialidade. Mas se eu estou comentando a respeito da sua não existência, como ficamos? Franz Boas era muito rígido com os seus alunos quando os orientava os seus alunos a descrever o quem viam e não o que entendiam ver. Ora, se a nossa visão de mundo, como o próprio nome indica, “visão”, é uma imagem que construímos, nos descrevemos o que vemos e o que vemos é a nossa interpretação.
Dentre os discípulos de Boas estavam Margareth Mead, Ruth Benedict, cientistas que ajudaram para que a Antropologia chegasse ao que é hoje. Eu acho que quem matou a charada foi Norberto Bobbio. Ele escreveu que o conteúdo de um texto não esta nele, mas fora dele. Ou seja: o conteúdo está na forma correta, clara e precisa pela qual o texto foi escrito. Assim sendo, o conteúdo não está no texto, mas na imagem que o seu autor permite que construamos.
Escrevendo da forma que nos ensina Bobbio, a interpretação do leitor far-se-á através das comparações entre as suas imagens de visão de mundo, o lócus descrito pelo autor e as linhas mestras da(s) teoria(s) que guiaram a descrição do autor e a interpretação do leitor. A ciência se apropria de formas das vida social: é binária e de oposição.
Estes comentários iniciais são em parte uma maneira para me justificar de algumas críticas, mas também são motes para discussões metodológicas para quem quiser tomar este caminho.
Será que este blog será chato na tentativa de querer agradar gregos e troianos? Não sei. É o meu primeiro blog. Antes de me crucificarem esperem um pouquinho até postar os textos seguintes.
Por fim, eu não pretendo escrever para uma categoria ou para alguém em especial., A minha idéia é escrever para o leitor. Independentemente de sua formação, de sua visão de mundo, etc. Ninguém tem a obrigação de concordar ou de discordar. Até a próxima postagem.
|
||
![]() | ||
![]() | ||
![]() | ||
|
||