Certa vez eu fui convidado para participar de uma entrevista numa emissora de TV pertencente a uma igreja. O tema era preconceito. Numa das perguntas, que não me lembro bem qual foi, me levou a mostrar que estamos preocupados com o preconceito contundente, explícito, mas não com os que convivemos no dia-a-dia.
Muitos destes preconceitos têm o objetivo de inclusão, mas que excluem; parte deles resulta da insegurança com que lidamos com o outro, ou de como fugimos das diferenças. Eu diria, até, e com certo cuidado, que o preconceito é universal. Deixe-me explicar antes que me chamem de radical.
O preconceito é um julgamento antecipado a partir da perspectiva de um grupo ou da idiossincrasia de quem prejulga. Eu, por vezes, sou chamado de soberbo e outras de desligado, ou que vivo no mundo da lua em face de não atender quando chamado. Ao falar que tenho uma deficiência auditiva sinto ser evitado, talvez porque as pessoas têm dificuldade de lidar com uma deficiência. Principalmente uma deficiência que não é facilmente percebida, pois sempre fica aquela dúvida: será que é surdo, mesmo? Ora, se eu escuto, por que ele não?
Do grupo que estava na mesa redonda eu era o único sem ideais religiosos; os outros eram recém convertidos e havia um jornalista. O apresentador era um pastor. Comentei que o assédio é uma forma de preconceito, pois o que assedia prejulga o assediado como alguém inferior. Social, econômica, intelectual, política ou religiosamente. O que caracteriza o assédio, então, é a pressão que parte de um superior hierárquico (no sentido enumerado acima) a um subalterno. No caso do assédio sexual fora de um ambiente institucionalizado (uma empresa, por exemplo), o homem é sempre quem assedia, pois imagina a mulher num patamar inferior ao seu. O sucesso do filme Assédio Sexual foi porque a história era a de um homem sendo assediado por uma mulher, a sua chefa.
Claro que o assédio sexual é uma das formas de assédio. Há o assédio caritativo. Quem não já experimentou o assédio, por telefone, de representantes da LBV (Legião da Boa Vontade), Casas André Luiz, e outras instituições congêneres? Das pessoas que se dizem pertencer a instituições de apoio aos consumidores de drogas, de álcool, etc., postadas nos semáforos? O sentimento de ter gente que dependem deles dá-lhes a superioridade, tornando-lhes difícil receber uma resposta negativa.
O assédio religioso talvez seja um dos mais terríveis e criminosos porque mexe com visões de mundo. Claro que na entrevista usei palavras mais leves, e mesmo assim causei um mal estar, pois os religiosos chamam esse assédio de proselitismo. Proselitismo religioso, quando estão “levando a palavra de Deus”? Por que este proselitismo se transforma em assédio? Transforma-se porque os religiosos andam em grupos e costumam abordar uma ou no máximo duas pessoas; a superioridade numérica transforma o proselitismo em assédio.
Eu sempre fiquei em dúvida se o PT (Partido dos Trabalhadores) era um partido político ou uma igreja. Certa vez eu ameacei um colega, petista até as raízes, um militante fundamentalista, de processo por assédio político. Ele, apesar de ser da área das ciências sociais, não havia atinado para esta questão. Ele usava a mesma técnica assediadora usada pelas igrejas evangélicas.
Fala-se muito de Hugo Chavez, atual presidente venezuelano, como um “protoditador” e que vende aos cidadãos daquele país um paraíso socialista, no qual ele seria o próprio Deus. Estas coisas ainda existem. Em pleno século XXI. Mas ele seria caso único? Não. A Internet tem sido o veículo do que eu tenho me referido como “teocracia difusa”. As igrejas, como entidades coercitivas, servem-se bem de instrumento e/ou de modelo para estas tentativas caudilhescas.
A “teocracia difusa” se refere à difusão de idéias religiosas através de mensagens subliminares constituídas de pequenas narrativas, cafonas, é verdade, mas que descrevem uma pequena moral. E no final afirma-se ser palavra de Deus, de Jesus, ou de qualquer outro personagem do panteão religioso do cristianismo. Como se estes personagens fossem entidades concretas e não resultado de produções ideológicas.
Compreendo e concordo a afirmação abaixo. Só que não acredito que o controle, o cerceamento e mesmo o casamento venha resolver o problema da pedofilia não só na Igreja católica, mas em todas as religiões que pregam o o relacionamento sexual, como algo pecaminoso.
Ao escrever isto me lembrei de uma informação de Peter Brown (Corpo e Sociedade: o homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1990. p. 16): "Na costa sul da Turquia, em meados do século C d.c, um padre cristão do templo de Santa Tecla, em Selêucia (atual Meryemlik, perto de Silifke), resolveu escrever uma versão aperfeiçoada da lenda da santa virgem. Apresentou Tamíris, o noivo rejeitado por Tecla, acusando S. Paulo perante o governador local por ter pregado a virgindade perpétua na cidade, e, com a virgindade, o abandono do casamento..." (p.16) E a partir transcreve as afirmações deste religioso, mostrando que o nascimento é a causa da existência do mundo ou, segundo este religioso, "a raiz e a fonte de nossa natureza".
O relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo mais conhecido é a entre homens. Isto talvez se dê em face de a maioria dos estudos foi sido realizada por homens (com trânsito nas sociedades masculinas) ou porque os homens vivem no mundo público. Por este motivo conhecemos mais sobre a homossexualidade masculina que a feminina. Parece ser este o caminho que segue as informações que temos sobre a pedofilia.
No caso do mundo cristão, que tem em Paulo de Tarso (São Paulo) o seu verdadeiro construtor (Jesus foi um ícone). John Shelby Spong (Rescuing the Bible from Fundamentalism: a Bishop rethinks the meaning of scripture. San Francisco: Harper San Francisco, 1991) traça um perfil muito interessante de Paulo de Tarso; a sua importância faz com que ele ocupe dois capítulos com este personagem da história do cristianismo.
As palavras de Paulo denotam uma misoginia e segundo Spong isto se deve ao seu homo-erotismo e foi esta sua orientação que o levou a mudar de lado, de perseguidor ae militante do cristianismo, pois segundo Spong no cristianismo havia o perdão, inclusive ao que hoje se chama de homossexualidade..
Dentro da Igreja Católica há uma contradição (com conseqüências mais positivas que negativas) de que enquanto combate todas as formas de relacionamento sexual que conflitem com a sua visão, que parece ter como fonte a visão paulina, por outro lado dedica uma parte representativa dos seus esforços a tratamentos de soros positivos e outras questões paralelas.
Por trás disto, no entanto, existem os aspectos doutrinários, dogmáticos, contra as relações sexuais. E coisas semelhantes parecem acontecer entre os grupos evangélicos fundamentalistas.
A meu ver, a questão da pedofilia é uma das conseqüências desta contradição. Portanto, não será com boa vontade, ou com "espírito cristão" (existe?), que vá se resolver a questão da pedofilia.
Como estes problemas não são resolvidos através da educação sexual, mas através de grupos de militância, as pessoas se perdem sob a acusação de homofobia, quando há, na realidade, um movimento de heterofobia.
E assim, a pedofilia continua em terreno adubado.
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1807200709.htm. Acesso em 18/07/2007.
São Paulo, quarta-feira, 18 de julho de 2007
RELIGIÃO
Pedofilia não é um problema só da igreja, declara Vaticano
DA REDAÇÃO
O Vaticano afirmou ontem, por meio de sua Diretoria de Imprensa, que, embora o abuso de crianças não seja um problema existente apenas na Igreja Católica, esta entende que deve ser uma protagonista na luta contra a pedofilia.
A declaração do padre Federico Lombardi, diretor de Imprensa do Vaticano, diz respeito a acusações de práticas de pedofilia por padres na Arquidiocese de Los Angeles (EUA), que resultaram em um processo judicial.
No último sábado o litígio chegou ao fim, com um acordo entre a acusação e a diocese, que pagará indenizações no valor total de US$ 660 milhões (cerca de R$ 1,23 bilhão) às cerca de 500 pessoas que se dizem vítimas de abuso. É o maior valor pago por uma diocese desde que veio à tona o primeiro escândalo de pedofilia da igreja nos EUA, em 2002, em Boston.
De acordo com a agência de notícias católica Servizio Informazione Religiosa, Lombardi disse ainda que tal acordo, com "os sacrifícios que comporta", é também um sinal da decisão da igreja de "fechar uma página dolorosa" e olhar adiante, para prevenir esse tipo de delito e criar um ambiente seguro para as crianças em todos os âmbitos da igreja.
Os casos de Los Angeles diziam respeito a acusações de práticas de abusos ocorridas desde os anos 40 até os anos 90. Segundo o arcebispo local, cardeal Roger Mahony, a diocese terá de vender propriedades para cumprir o acordo.
Qual é a importância de um jornal numa cidade pequena? É importante em vários aspectos, mas vou me ater em dois: memória e informação.
Há pouco mais de trinta anos, quando eu fazia pesquisa no Amazonas, apontaram-me um armário com duas coleções de jornais que circularam em Humaitá na última década do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX. As matérias permitiam reconstruir uma história viva da cidade de Humaitá, os interesses dos seus moradores, o prestígio das pessoas...
Era a história viva de uma população contada através dos olhos dos redatores do jornal, a maioria sem uma escolaridade formal, mas pessoas com perspectivas de passado e de futuro. A falta destas perspectivas faz com que se pense que o mundo começa e termina com o indivíduo.
Os anúncios centenários mostravam o que se comia e de onde os alimentos eram importados. A manteiga, por exemplo, era importada do sul do país e parte dela da Europa; o jornal nos leva a inferir (concluir, raciocinar, refletir) que não se praticava a pecuária na Amazônia.
A memória de uma cidade, então, são as informações contidas e guardadas nos jornais. Por menores que sejam.
As informações! Houve uma grita, tempos atrás, quando o atual governo tentou, através de Lei, “regulamentar” a imprensa e a produção artística. Motivo: o temor pelas informações. Os governos, de modo geral, temem as informações. Um filósofo canadense, por exemplo, teve um seu livro traduzido para o português, com um nome bem sugestivo: Conhecimento proibido (Roger Shattuck Conhecimento proibido: de Prometeu à pornografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998). Este livro mostra que determinados tipos de informações não devem chegar à população. Um grupo religioso, por exemplo, tem feito campanha para que os estudos do DNA fossem proibidos, pois, segundo os cientistas estariam se colocando acima de Deus, um elemento de crença. Os meios de comunicação divulgam e então eles se tornam um instrumento da besta.
Os grupos evangélicos têm uma gravura, do caminho estreito e do caminho largo, que encaminha o crente, respectivamente, ao céu e ao inferno. Numa das suas versões há um trem no fogo eterno. O trem foi, na Inglaterra moralista do século XIX, um instrumento da besta, pois transportava pessoas de um local para outro. Elas voltavam com novos conhecimentos, novas idéias, permitindo-lhes contestar as idéias dos lideres religiosos locais.
A idéia de autoridade esta ligada a uma instituição. A Igreja, a Prefeitura, etc. O Prefeito, o padre, o pastor, são autoridades institucionais, o tipo mais comum e são quem mais sentem a difusão de informação. Existem outros: a autoridade pelo saber (meritocracia), a autoridade de prestígio social, e vários outros tipos.. Se o detentor de uma autoridade institucional não tiver prestígio, saber, etc., terá uma autoridade vazia. Este é o motivo de os governos autoritários não gostarem da imprensa.
O segredo é uma forma de poder. O chefe religioso, o chefe político. Observei, numa pesquisa que realizei entre grupos pentecostais na Baixada do Ribeira, um pastor que proibia aos seus seguidores de assistir qualquer programa de televisão. A televisão é “um instrumento da besta”, dizia. Quando fui na sua casa encontrei a sua esposa e os seus filhos assistindo TV. Perguntei: você me falou, há pouco, que a TV era instrumento da besta? O seu aparelho, justificou, era para conhecer o mundo televisivo e assim orientar o seu povo. Ele se munia do segredo, do cerceamento à informação, para reforçar o seu poder.
O papel da imprensa, e deste jornal em Morretes, é o de informar e, portanto, construir uma memória e permitir a participação dos indivíduos na vida cultural, política, social. Em outras palavras, ao exercício a cidadania.
O meu amigo Zé existe e fez um comentário à minha pensata, abaixo, que intitulei de 1968, um ano incolor. Poderia ter dado um outro nome, como muita gente já fez.
Zé, capacidade LILS tem. Pode não ser aquela do nosso gosto político. Mas tem. Como a democracia é um regime de conflito, é preciso reconhecer quem está no poder - e só o fato de ele estar no poder demonstrou uma capacidade política que a oposição não teve. Portanto, não se deve ficar falando se ele é capaz ou não; um governo não é só uma pessoa. O Presidente da República talvez seja a pessoa que mais sofra pressões. O que você escreveu e o que eu escrevo aqui é uma forma de pressão. E quem o pressiona reconhece-o como Presidente. Estas são as regras do jogo.
Mas (sempre há um “mas”...) considerando Lula ser identificado como um líder das esquerdas (que eu tenho as minhas dúvidas. Sempre as tive) e estar fazendo alianças com gente identificada como de direita, vemos surgir alguns sinais interessantes, que noutros tempos chamava-se de “política do funileiro”: martela-se num ponto para desamassar o outro extremo. Um exemplo? Quando Lula assumiu o seu primeiro mandato, Felício, então Presidente da CUT começou falar grosso. Foi defenestrado e ganhou uma comissão na Petrobrás. Luiz Marinho assumiu, no seu lugar. Marinho é um sindicalista reconhecido como portador de todas as características peleguistas. Pelego, para quem não sabe, é um jargão depreciativo aos sindicalistas que ao invés de lutarem pelos interesses dos trabalhadores defendiam secretamente os interesses dos empregadores públicos ou privados. Luiz Marinho foi nomeado Ministro do Trabalho na metade do governo e João Felício, depois de um doce exílio de educação política voltou à presidência da CUT.
Tenho lido nos jornais que o Presidente Lula tem solicitado ao PT e ao MST que não atrapalhem a governabilidade deste seu segundo mandato. Há algumas coincidências providenciais
Hoje estamos assistindo a reedição (mais inteligente) do que relatei acima. Emir Sader é um militante que foi chamado de intelectual, portanto ingênuo, e que se julgou dono da verdade. A reação do Senador Bornhausen, entrando na justiça, foi providencial ao governo Lula, calando Emir Sader. podendo, ainda, criticar o Senador, um nome de peso na oposição. Se for aprovado (e será) no seu estagio de reeducação política aparecerá daqui uns dois anos numa destas novas universidades federais recentemente inauguradas.

Emir Sader, que pretende recorrer, teve pena de prisão substituída por prestação de serviços à comunidade
DA REPORTAGEM LOCAL
O sociólogo e cientista político Emir Sader, professor do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), foi condenado por crime de injúria contra o senador Jorge Bornhausen (SC), presidente nacional do PFL. Sader disse, por intermédio da assessoria de imprensa da Uerj, que recorrerá da decisão. Procurado pela reportagem da Folha, o sociólogo não respondeu às ligações.
O juiz auxiliar da 22ª Vara Criminal de São Paulo, Rodrigo César Muller Valente, condenou o sociólogo à pena de um ano de detenção, em regime inicial aberto. O juiz determinou que a pena seja substituída por serviços à comunidade, pelo fato de o sociólogo ser réu primário. A condenação baseou-se também no fato de que "a injúria foi largamente difundida, alcançando caráter difuso a número indeterminável de pessoas".
A sentença diz ainda que Sader deve deixar o cargo público na universidade. Ontem, ele trabalhou normalmente. E permanecerá no cargo, segundo a Uerj. A razão da condenação foi um desdobramento da polêmica frase de Bornhausen, em 2005 -"A gente vai se ver livre desta raça por pelo menos 30 anos", em referência ao PT e à esquerda brasileira.
Emir Sader respondeu à frase de Bornhausen em artigo publicado no dia 28 de agosto de 2005, na agência de notícias na internet "Carta Maior". O sociólogo escreve artigos em um blog na "Carta Maior".
"O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares (...) revela agora todo o seu racismo e seu ódio ao povo brasileiro com essa frase, que saiu do fundo da sua alma -recheada de lucros bancários e ressentimentos", disse Sader na ocasião. Ele defendeu ainda que Bornhausen fosse processado por discriminação e racismo, e acusou o senador de atitude fascista.
Bornhausen impetrou queixa-crime contra Emir Sader. "Inegável, pois, que o artigo de autoria do querelado conteve ofensa à dignidade e decoro do querelante", disse o juiz. "Ao adjetivar um senador da República de "racista", esqueceu-se o réu de todos os honrados cidadãos catarinenses que através do exercício democrático do voto o elegeram como legítimo representante em nossa República Federativa. Trata-se, pois, de conduta gravíssima, que de modo algum haveria de passar despercebida, principalmente porque partiu de alguém que, como profissional vinculado a uma universidade pública, jamais poderia se valer de um meio de comunicação de grande alcance na universidade em que atua para divulgar ilícito penal".
1968 foi o ano em que terminei a faculdade. Terminei a faculdade um pouco tarde pois fiz um caminho inverso do que se faz normalmente. No caso da Antropologia, eu fui estudar esta área do conhecimento na minha volta do Xingu. Foi lá que eu me engracei por ela.
Aqui no Brasil chegou somente os conflitos do movimento estudantil, pois a ditadura tornou o terreno fértil para isto. Mas não chegou o movimento dos filósofos, por exemplo, que rompeu com o marxismo, que perdera sentido como práxis política. O stalinismo era a negação da essência marxista. O nosso partidão era stalinista e ainda hoje encontramos stalinistas entre nós. Zé Dirceu nunca confessou, mas ele rota stalinismo. O centralismo democrático não tem nada de leninismo, é puro stalinismo.
A virada ideológica, todavia, se deu a partir de 1970, depois do AI5 (Ato Institucional nº 5). Entramos num eclipse político total e aí houve uma profunda ideologização marxista, mas com enfoque stalinista. Isto era o novo e o certo. O resto era o duvidoso. Pelo que vimos, ainda é. As universidades começaram a formar militantes. Perderam grande parte a sua função do livre-pensar.
O Professor Milton Santos, numa entrevista dada ao JB (27/08/2000) afirmou que “A universidade é o lugar de intelectuais, o sujeito que dedica todo o tempo a busca da verdade, e também de letrados. Você pode ser um bom professor e um pesquisador. Tem espaço para os dois na universidade. Mas, é verdade também que, embora ela esteja formando intelectuais, ela tem produzido em maior número letrados. O espaço universitário se define por ser o lugar do livre pensar, de criar idéias e discuti-las. Esse é sentido real da vida universitária. No entanto, acho que o clima atual não favorece a liberdade de pensar”. Anos antes, numa conferência num encontro dobre professores e pesquisadores negros das universidades paulistas, fez uma afirmação pra que um intelectual nunca deverá esquecer: o intelectual nunca será um militante porque pensa; um militante nunca será intelectual porque lhe falta a capacidade de pensar. Pensar é refletir.
Uma grande parte da militância petista, nestas eleições de 2006, era formada por professores universitários distribuindo notícias mentirosas, outras com fatos destorcidos, que me levavam a indagar se a sua produção de conhecimentos é verdadeira.
Ligo isto à ideologização posterior ao AI5, a que me referi acima. Perdeu-se a capacidade de se pensar. Lá em Morretes, ainda guri, chegava rápido em casa para alcançar o carteiro que levava o jornal “O Dia” para dar uma vista antes de ir ao rio pescar um Inhacundá para comer com arroz branco.
Norberto Bobbio comenta em Teoria do Ordenamento Jurídico de que o conteúdo de um texto não está “dentro” do texto, mas na correção e na clareza de como foi escrito. O conteúdo está na essência do pensamento do autor, materializado em palavras.
O pensamento é construção de imagem; o bom texto é um bom fornecedor de matéria-prima para a formação de imagens. Claro que as nossas imagines não são exatamente as imagens do autor do texto, pois as construímos a partir de nossas experiências de vida.
Hoje não mais precisamos a nos dar o trabalho de construir imagens porque elas já nos vêm prontas. Os meios de comunicações se encarregam disto. Recebemos a imagem pronta.
Tempos atrás li em algum lugar que a grande vantagem do computador era a de obrigar as pessoas a escrever. Escrever. Mas esta campanha eleitoral fez com que as minhas esperanças fossem embora. Elegeu-se alguém não porque era melhor, mas porque tinha por trás de si um Ás do marketing. Elegeu-se um produto não-letrado. Eureka! Não é letrado; talvez venha a pensar. Será o intelectual e assim, talvez, não precise mais falar do seu antecessor. Poderá vir a ser um intelectual. Ah, não, ainda pensa como um presidente de sindicato e o Brasil como um “sindicatão”. Uma “CUTizona”. Ah, pelo jeito perdi as minhas esperanças. Perdi, não, esqueci em qualquer lugar por aí. Se encontraram a “caixa preta” do Boeing que caiu na Amazônia, por que não encontraria as minhas esperanças?
Os morretenses da minha época devem estar lembrados dos conflitos e das disputas com os antoninenses, que eclodiam no futebol quando as equipes das duas cidades jogavam. Os juizes de futebol que apitavam as partidas dos times das duas cidades já vinham psicologicamente preparados a deixar o campo às disparadas para não apanhar por marcar faltas sempre tidas como proteção ao time adversário. Os antoninenses eram chamados de pés de anjo porque, diziam, tinham o hábito de usar tênis. Em contrapartida, diziam que os morretenses andavam de tamanco. Antonina tinha porto de mar, as Casas Pernambucanas, uma rádio, mas dependiam de baldeação de trem em Morretes. Os moradores de uma cidade sempre consideravam os da outra como os outros, os diferentes.
Mas o outro nem sempre é o diferente. Quando fui fazer o alistamento para o serviço militar na Base Aérea, avisaram-me que não estavam aceitando soldados de Morretes, de Antonina e de Paranaguá porque eram “puladores” (faltavam ao expediente, saíam escondidos, chegavam atrasados...) e não podiam ficar um final de semana fora do litoral. Para os curitibanos, todos os pirimbus eram iguais; mas as diferencias começavam quando tomavam o misto (o trem da tarde, com vagões de carga e de passageiros) para descer a serra e ficavam mais evidentes durante as tentativas de conquistar as meninas de Piraquara (por sinal muito bonitas!).
Estas relações conflituosas são rotineiras quando pessoas pertencentes a diferentes grupos se encontram (de países, Estados, cidades, times de futebol, escolas de samba, etc.). Estas diferenças também aparecem dentro de grupos menores. Continuando com o exemplo de Morretes, o riozinho (“rio da Fábrica”) que corta a cidade, dividia-a em duas metades, a do Operário e a do Cruzeiro (novamente o futebol!); o lado do Operário era PSD e o do Cruzeiro UDN. O “pedaço” do PTB (que agrupava os ferroviários), era do outro lado dos trilhos da Estrada de Ferro. Esta rivalidade dividia amigos e membros de família: Valdinho e os filhos da Chiquita moravam do lado do Operário, mas eram cruzeiristas; Divar, cruzeirista até hoje, é sobrinho de Valdico (irmão de Chiquita), operarista até a alma que hoje mora “do lado do Cruzeiro”. Corta cabelos na barbearia de Divar. Havia os que mudavam de lado. Nenê Scremin pertencia ao lado do Operário, mas começou a jogar no Cruzeiro. Tanto fizeram que o trouxeram de volta. Evaldo Zilli sempre viveu do lado do Cruzeiro, mas foi “levado” para o Operário. Benedito Rolha, seu Roberto Lopes e filhos eram operaristas roxos que moravam do lado do Cruzeiro. Lauro Lopes, filho de seu Roberto, foi jogador do Cruzeiro e depois passou para o Operário. Os que mudavam de time eram trânsfugas para os antigos companheiros e motivos de elogios para os do novo time.
As situações descritas acima indicam que ser igual ou ser diferente é uma questão de situações e de interesses de momento. Em Curitiba (e até pegar o trem), morretenses e antoninenses eram todos iguais (“puladores”, por exemplo); em Morretes eram todos iguais frente aos antoninenses, mas se diferenciavam quando prevaleciam assuntos locais. Entra, aí, o conceito de gente. Gente somos nós; os outros não são gente. O que nos torna gente, então, é sermos iguais. Claro que isto tem gradações. Se estudarmos a história das famílias no Brasil, aprendemos que alguém para ser gente teria que se agregar a uma família, tornando-se “gente da família...” Não se agregando – e, portanto não sendo gente – perdia até o direito à vida. Os grupos tribais sempre se denominam como gente. Se for de outro grupo não será gente. Se trouxermos o ontem para o hoje, e o que for indígena para nossa sociedade, podemos citar os exemplos das torcidas uniformizadas em que o simples vestir uma camisa de time adversário será motivo para “deixar de ser gente”.
Nós, de Morretes (nascidos, adotados, etc. pela cidade), somos gente de Morretes. Se assim somos, é porque temos interesses coincidentes, visões de mundo semelhantes (quem vê diferenças entre nós, somos nós mesmos), e, portanto características comportamentais similares. Esta identificação em ser “gente de...” é porque nascemos no seio de um grupo, ou uma comunidade, onde aprendemos a ser um de seus membros. Há, neste lugar geográfico em que nascemos, uma população (um ambiente social) e uma paisagem (um ambiente físico, com um tipo de topografia, de solo para agricultura, de comércio, de meios de comunicações, tipos de comida – como o barreado). A interação destes dois elementos proporcionará uma característica especial aos seus moradores, à sua arquitetura, às suas atividades econômicas, um modelo de poder político, etc. Teremos, então, a partir destas características dizer que Morretes é assim e desta forma Antonina é diferente porque existem outras características que colaboraram em sua formação histórica. Apesar de muito próximas. Em outras palavras, em cada uma das cidades existem maneiras de agir, de sentir e de pensar apropriadas.
(Publicado orinalmente em: Morretes como ela mesma. Jornal do Leste. Curitiba: outubro de 1997, p.08 (Opinião))
Estas maneiras de agir, de sentir e de pensar são uma forma simplificada do que os antropólogos chamam de cultura. Existem aquelas maneiras genéricas que chamamos de brasileiras e outras, ainda mais genéricas, que chamamos de ocidentais. Culturas brasileira e ocidental, respectivamente. Se por um lado estas maneiras de agir, de sentir e de pensar podem se tornar cada vez mais genéricas, também podem se tornar mais específicas, podendo chamá-las de subexpressões culturais. O Paraná, enquanto sociedade, representa uma subexpressão da cultura brasileira, mas também pode ser considerado como uma subexpressão cultural do sul brasileiro. Mas também pode ser classificado segundo diferentes regiões, os chamados Paraná do sul, Paraná do norte, oeste do Paraná, e assim por diante. Qualquer divisão cultural que se queira fazer será válida porque nenhuma das regiões selecionadas é homogênea. Morretes poderá ser classificada como uma destas especializações. E é isto, então, que nos torna “gente de...” Nós fomos “construídos” pelo nosso grupo social e é isto que nos torna pessoas.
Se fomos socialmente “construídos”, esta “construção” obedeceu a um modelo sociocultural, econômico e político de onde fomos criados, educados. Nós, com nossas idiossincrasias, denunciamos esta nossa socialização (o nome técnico daquilo que dissemos na frase anterior). Nós seremos reconhecidos (identificados) como um participante de determinado grupo. A nossa identidade foi construída desta forma. Só que a nossa identidade tem o sentido de mostrar em que grupo fomos socializados. A identidade de Morretes, então, é a síntese das identidades apresentadas pelos morretenses. Claro que, quando fora de Morretes. A identidade de morretense em Morretes não terá significado porque todos são morretenses, portanto “iguais”.
Falei de cultura enquanto conceito antropológico. O significado é amplo com o sentido de cultivo, seja na agricultura, seja no saber. A pessoa que estudou ou que lê muito, que “sabe das coisas”, é reconhecida como uma pessoa de cultura. Ela cultivou um saber. Um país, uma comunidade, também podem cultivar e conservar o saber de seus membros através de livros, bibliotecas, museus, monumentos, etc. Cada um de nós somos partes da (e de uma) história e o cultivo do saber é a preservação da memória desta história. E assim poderemos saber e dizer o quê e quem somos. Parte de minha história, e, portanto de minha identidade, está em Morretes. Se não preservar a memória desta identidade, perderei as minhas raízes. Podemos – e devemos – dizer o mesmo para com uma comunidade (ou cidade).
Quando passo por São Sebastião sinto uma saudade imensa de minha Morretes; quando vejo fotos de Parati lembro logo de Antonina. Estas cidades, de idades aproximadas, apresentam características semelhantes: suas casas, suas ruas, a disposição arquitetônica, seguiram um modelo cultural do momento histórico em que foram construídas. Por trás disto está o saber daquele momento, a disposição segundo as hierarquias social, política e econômica, um momento histórico congelado naquelas obras construídas pelo homem. É desta forma que vemos Morretes. Esta é a sua identidade. (Mauro Cherobim – São Paulo – jul/1997)
Mensaje 47
Fecha: Junio 25
Autor: Mauro Cherobim
Asunto: Xamanismo e Medicina [Enviado originalmente en portugués. Traducido por Ricardo Díaz]
El tema chamanismo versus medicina provoca muchas discusiones. Si pensamos en la formación de la antropología como una ciencia para que los europeos entendieran a los pueblos colonizados, verificamos que esto también está muy presente en nuestras miradas antropológicas.
Será que los médicos actuales no tienen algo de chamanes? Se habla muy mal de la medicina aquí en el Brasil. Se debería hablar de instituciones hospitalarias, pues la medicina, como ciencia, está muy adelantada. Pero es eso lo que pesa en la balanza? Los médicos, por una serie de razones que no cabe discutir ahora, se volvieron incapaces de dar continuidad a aquella empatía con el paciente, de la misma manera que hacen los chamanes.
La medicina y la religión están muy cerca y los médicos (y el personal de la salud, de un modo general) trabajan en el límite entre lo profano y lo sagrado. Médicos, enfermeros y todas las personas que transitan por los hospitales es como si fuesen sacerdotes, y los enfermos entregan en sus manos su vivir y su morir.
Esta es una característica de la práctica chamánica. Nosotros occidentales, definimos esta relación sagrado/profano dentro de nuestro contexto cultural extremadamente etnocéntrico, llevándonos a considerar estas prácticas en otros pueblos, o en sectores de nuestra población, fuera de los grupos considerados formadores de opinión, como algo no tan inteligente, que precisa de sus notables para “mejorar” hasta equipararse a nuestra inteligencia. Esto nos lleva a dar nombres diferentes a cosas que son muy parecidas.
Me gusta comenzar mis cursos de Antropología con un texto de Horace Miner, “Los ritos corporales entre los Nacirema” (MINER, Horace. “Body ritual among the Nacirema”. American Anthropologist. V. 58, p. 503-507, June, 1956), una etnografía de los americanos (American = Nacirema), con mucho humor e ironía. Y él muestra las características chamánicas de los médicos, de los dentistas, de los sicólogos, de los enfermeros, etc. Porqué entonces, no verificar estos puntos de contacto existentes entre la medicina y el chamanismo? Porqué existen tantas cruces y otros íconos religiosos en los hospitales?
La revista Veja de esta semana publicó una entrevista con el siquiatra Jorge Alberto da Costa e Silva que habla de su especialidad y elucida algunos puntos del uso de la enfermedad con la finalidad de ganar dinero.
Pero eso es asunto para otro momento pues hoy he sido muy largo. Abrazos.
Foi ás 8h30 de 20 de junho de 1937. Segundo o meu pai, uma manhã de inverno paranaense, de um céu azul, sem nenhuma nuvem, um céu que promete geada.
Ainda era escuro, nos primeiros sinais de parto, meu pai correu para a estrebaria e encilhou o cavalo à charrete, na colônia Central, parte da colônia Nova Itália de Morretes. Era uma potranca ligeira, pois tinha que dar um bom trote de uns 3km de ida até a casa de Dona Margarida, a parteira, e voltar no mesmo trote.
Este foi o meu pouso. E (ainda) aqui estou eu.
Hoje se fala com em ações afirmativas com muita veemência. Dentre elas estão as cotas de matrículas nas universidades para categorias sociais consideradas excluídas. As ações afirmativas, como políticas sociais sem a certeza de darem certo se transformam em engodos.
As cotas para os negros ingressarem na universidade são uma ação afirmativa que se pretende “incluir” uma parcela da população negra hoje considerada “excluída”. As cotas são necessárias, justifica-se, porque os negros não tiveram uma formação escolar próxima daqueles que disputam, entre muitos candidatos, cada vaga de uma universidade prestigiada. Eventuais beneficiadas pelas cotas farão parte de uma minoria em cada classe, entre dez ou vinte por centro. Será que algum professor irá prejudicar a maioria em favor de uma minoria? Não irá. Por uma questão ética. O sistema de cotas exclui estudantes com capacidade intelectual de ingressar na universidade.
A imprensa tem noticiado a respeito de estudantes que foram beneficiados pelo sistema de cotas e se sobressaíram dentre os demais. Estes alunos fazem parte de uma exceção ou é regra estes alunos se colocarem entre os primeiros?
O sistema de cotas não é justo porque exclui estudantes aprovados com condições de disputar vagas em número previamente anunciadas; e não é justa porque se torna uma “sobre-exclusão” (o sentimento de incapacidade de acompanhar a sua turma) dos alunos que ingressaram pelo sistema de cotas.
Provavelmente eu possa ser acusado de emitir opiniões que não são politicamente corretas, frustrando pessoas que poderão se beneficiar pelo sistema de cotas. É bom que esta frustração aconteça antes do ingresso.
A imprensa tem noticiado a respeito de muitas organizações não-governamentais têm conseguido “colocar” alunos em universidades em que há grande disputa de vagas, tornando desnecessário o sistema de vagas. Mas isto é um “quebra-galho” à grande injustiça que se tornou a educação brasileira. Ela se tornará justa a partir do momento que os diferentes níveis da educação mereça uma atenção governamental de modo que os alunos cheguem à universidade com direitos iguais (ou pelo menos próximos).
As universidades deverão ser consideradas como investimento através da pesquisa (produção de conhecimentos), da docência (disseminação do conhecimento e formação profissional) e de extensão à comunidade (aplicação experimental do conhecimento). O sistema de cotas tornará as universidades em locais de benemerência.
As universidades começaram a se degradar a partir do momento que os ensinos fundamental e médio começaram a ser abandonados.
Em 1996 a minha mãe foi homenageada dando o seu nome à uma escola municipal de Morretes. Minhas irmãs pediram-me que escrevesse algo para agradecer a homenagem, em nome da família. Aproveitei para escrever algo que pudesse levar as pessoas refletirem a respeito da educação fundamental. O texto é o a seguir.
Parte I
Resumo biográfico de
Dulce Serôa da Motta Cherobim
Uma reflexão sobre educação
Fui encarregado, como filho mais velho, escrever algo sobre minha mãe, Dulce Serôa da Motta Cherobim. A primeira dificuldade é a do filho escrever sobre seus pais, dos quais se sente uma de suas projeções. Este resumo biográfico tornou-se uma reflexão sobre si próprio; como filho e como morretense. É difícil separar estas duas coisas. A segunda dificuldade, decorrente da primeira, é escrever suas memórias - e de memória - sobre aquela que o gerou e o socializou: isto é, tornou-o parte deste mundo social em que vivemos. For fim, acho que uma relação de datas não diria quem foi Dulce Serôa da Motta Cherobim, falecida há quarenta anos. Então, não só como filho, mas como cidadão, faço o possível para que a patrona de um grupo escolar não seja simplesmente um nome, mas uma pessoa que viveu a educação e lutou por ela nesta nossa Morretes.
Dulce Serôa da Motta Cherobim nasceu em Guajuvira, município de Araucária em 16 de outubro de 1910 e faleceu em Morretes, em 06 de março de 1956. Pouco antes de completar seu quadragésimo sexto aniversário. Faleceu após sofrer, três anos antes, um derrame cerebral. Deixou-nos jovens. Duas filhas adolescentes, uma pré-adolescente e um filho que acabara de estrear sua vida adulta, o tão esperado “dezoito anos”. Dulce Serôa da Motta Cherobim, apesar de adoecer e falecer prematuramente, deixou uma marca de sua vida como pessoa e como professora, lembrada quarenta anos depois de sua morte para se tornar patrona um grupo escolar. Esta homenagem, a meu ver, supera a emoção de sua passagem e ressalta a marca de sua presença entre os educadores de nossa cidade.
Se existir "um outro lado”, como muitos acreditam existir, vejo-a encabulada com a homenagem; seu valor era uma questão de vida. Se hoje nós, seus filhos, conseguimos algo em nossas vidas devemos isto à sua retidão de caráter. Posso dizer que seus irmãos, filhos, sobrinhos, netos e bisneta, sentem-se emocionados e orgulhosos com esta homenagem.
Mas quem foi minha mãe? Os morretenses que a conheceram e que foram seus alunos, os mais novos são os cinqüentões de hoje. Como os mais novos não a conheceram, vou procurar fazer um breve resumo de história.
Parte II
Resumo biográfico de
Dulce Serôa da Motta Cherobim
Uma reflexão sobre educação
Dulce Serôa da Motta Cherobim era filha de Francisco Serôa da Motta Sobrinho e de Maria Carmela Sentone da Motta. Seu pai, Seu Serôa, nasceu em Mata da Vara, zona rural de Propriá, Sergipe. Ficou órfão ao nascer. Foi criado por uma tia materna até a adolescência, quando foi para Recife, viver com um seu tio, também do lado materno e de quem herdou o nome. Muito jovem sentou praça no Exército, na mesma unidade em que este seu tio (então Coronel Serôa) era comandante. Como primeiro sargento foi incorporado às tropas que se deslocaram para o Acre (Questão do Acre, conflito do Brasil com a Bolívia). Adquiriu beribéri (doença devida à carência de vitamina B1) durante a viagem. Ele e parte da tropa com a mesma doença foram levados ao Rio de Janeiro para serem tratados e à Lorena (SP), e posteriormente Piquete (SP), para convalescerem. Restabelecido, o então Sargento Serôa foi transferido para a Colônia Militar de Xanxerê, em seguida para Curitiba e depois para Foz do Iguaçu. Primeiro a aventura e depois o casamento. No tempo em que meu avô ficou em Curitiba, conheceu Maria Carmela. A viagem de Curitiba a Foz do Iguaçu era feita com tropas de carroções até Guarapuava e daí para frente com tropa de cargueiros. Uma viagem normal demorava entre setenta e oitenta dias. A cada viagem formava-se uma tropa e os viajantes teriam que aguardar alguns meses para isto acontecesse.
Maria Carmela, moça prendada, uma das primeiras alunas do Instituto de Educação, era filha del Signore Antonio Sentone, um napolitano que não queria saber de soldados em sua família. Seu apaixonado recebeu um ultimatum: para casar teria que sair do Exército. Saiu. Sua estadia em Foz foi marcada por trocas de cartas apaixonadas que, mais tarde, seus netos puderam deliciar-se em lê-las. De volta a Curitiba, Maria Carmela já era professora, trabalhava em sua primeira classe, num distrito do atual município de São José dos Pinhais. Depois foi transferida para Guajuvira, distrito de Araucária, casada com o agora paisano Serôa. Compraram um carroção e montaram uma fábrica de (refrigerante) gasosa naquele distrito, consumido em Curitiba. O carroção era seu meio de transporte para a família e para a carga.
Seus três filhos (Dulce, Almir e Rubens) nasceram em Guajuvira. Por volta de 1915 soube da possibilidade de se conseguir terras devolutas numa distante Morretes. Desceu a serra, e foi conversar com o encarregado do órgão que tratava dos assuntos fundiários: Seu Elesbão. Foram ver as terras. Ao subir os morros do Pitinga, mio vechio Serôa contava que encontrou, no meio da mata, uma folha de jornal com uma manchete em letras garrafais: "TEU LUGAR É AQUI". Esta manchete o fez viver o resto de sua vida no Pitinga. Minha avó assumiu uma escola do Rio Sagrado, onde lecionou até sua aposentadoria. Foi onde seus três filhos estudaram.
Dulce, minha mãe, em meia adolescência, foi mordida por um cachorro. A falta de recursos em Morretes levou-a a se tratar em Curitiba, onde ficou aos cuidados de sua tia Noêmia (Nia). O seu tratamento coincidiu com o concurso de ingresso para o curso de professoras do Instituto de Educação. Foi aprovada nas primeiras colocações e assim continuou durante todo seu curso. Após se formar conseguiu transferir-se para Morretes, por volta de 1930.
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